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Transformação ou reprodução: qual o papel da escola afinal?

Foto do escritor: Pedro Brandão
Pedro Brandão
10 de jun. de 2023
4 min de leitura

Sabia desde pequeno que seria educador. O ambiente Escola e tudo que estava nele me encantava de maneira que até hoje não sei explicar. Por mais louco que pareça, atribuo muito disso ao fato de ter nascido no dia 15 de outubro, um claro sinal de que já vinha ao mundo com um débito para com a educação. Superstições a parte, fato é que me sinto a pessoa certa, no lugar certo, fazendo a coisa certa. Ainda assim, carrego com essa alegria (e sorte, pra outros) uma penca de incômodos. Um deles é: mas afinal, porque se trabalha tanto em prol de uma educação que parece não avançar?


A educação é um dos pilares fundamentais da sociedade, e a escola desempenha um papel crucial na formação dos indivíduos. Ao longo dos anos, tem havido um debate constante sobre qual deve ser o verdadeiro propósito da escola: transformação ou reprodução? Será que a escola deve ser um local de mudança social e desenvolvimento de habilidades críticas, ou sua função é simplesmente reproduzir as normas e valores estabelecidos?


A escola como reprodução social

Historicamente, a escola foi concebida como uma instituição responsável por transmitir conhecimentos e habilidades básicas, como ler, escrever e fazer cálculos. Era vista como um lugar onde as crianças eram preparadas para se tornarem cidadãos produtivos e obedientes, seguindo um currículo pré-determinado. Esse modelo de reprodução social enfatizava a conformidade e a adaptação às estruturas existentes.


No entanto, à medida que a sociedade evoluiu, surgiram críticas em relação a essa abordagem tradicional da educação. Muitos argumentam que a escola deve ir além da mera reprodução e se tornar um agente de transformação social. Afinal, vivemos em um mundo em constante mudança, com desafios complexos que exigem pensamento crítico, habilidades de resolução de problemas e criatividade.


A escola como agente de transformação

Uma educação transformadora busca estimular o pensamento crítico, a autonomia e a capacidade de questionar e desafiar ideias preestabelecidas. Ela valoriza a diversidade de perspectivas, incentiva a curiosidade e promove a aprendizagem ativa. Além disso, uma abordagem transformadora da educação reconhece a importância das habilidades socioemocionais, como empatia, colaboração e liderança, para preparar os estudantes para se tornarem cidadãos engajados e responsáveis. Mas⚠️ ATENÇÃO: não estamos falando que essas coisas são importantes exclusivamente aos estudantes. É preciso que se amplie a visão e as iniciativas para que tudo isso seja oferecido à todos e em todas as relações na escola: com os educadores, com coordenadores e gestores, com as famílias...enfim, com todo mundo mesmo.


É possível uma reconciliação da transformação e reprodução?

É importante ressaltar que a transformação e a reprodução não são necessariamente conceitos opostos. A escola pode desempenhar um papel importante tanto na reprodução de conhecimentos e valores fundamentais da sociedade quanto na transformação das estruturas existentes. Afinal, a partilha de conhecimentos básicos é essencial para que os estudantes possam compreender e questionar o mundo ao seu redor. Com esse mesmo olhar, é importante que a instituição escola promova oportunidades para que seus colaboradores reflitam, periodicamente e consistentemente, em como todo projeto político pedagógico bem como sua essência existencialista promove, efetivamente, oportunidades para que todos os envolvidos nesta comunidade de aprendizagem sejam críticos, analíticos, pensadores e, portanto, agentes responsáveis pelas transformações tão necessárias em nosso país e no mundo. Enfim, a escola deve ser um espaço de reprodução do que é bom e de transformação de multiplicadores daquilo que pode e precisa melhorar.


Portanto, é saudável que a escola -essa, que é feita de gente - busque um equilíbrio entre a reprodução e a transformação. Deve-se fornecer uma base sólida de conhecimentos e habilidades, ao mesmo tempo em que promove a capacidade de questionar, pensar de forma independente e enfrentar os desafios contemporâneos. A educação deve ser inclusiva, valorizar a diversidade e garantir que todos os estudantes tenham igualdade de oportunidades para aprender e se desenvolver.


A escola como espaço de formação de agentes de mudança social

A escola não deve ser apenas um espaço de transmissão de conhecimentos, mas também um agente ativo de mudança social. Ao promover a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, a escola pode contribuir para a redução das desigualdades sociais, combatendo a discriminação e capacitando os estudantes a se tornarem agentes de transformação em suas comunidades. Pare para prestar atenção em mais uma coisa: de repente todas as escolas adicionaram ao seu slogan: formando cidadãos do mundo, críticos e agentes (ou protagonistas, mas eu me incomodo com essa ideia também que pressupõe antagonistas num ambiente que pele união, e não classificação). Mas será mesmo que estamos a esse serviço, ou é só mais uma ação de marketing? Não seriam essas molas propulsoras naturais de uma Educação com 'E' maiúsculo? E, de novo, será que isso só cabe na formação dos estudantes, ou também na formação dos educadores e das famílias? Well, eu sei, muito temos pra pensar ainda.


Concluindo aqui a minha reflexão, o papel da escola é complexo e multifacetado. Ela deve transmitir conhecimentos e habilidades essenciais, ao mesmo tempo em que promove a transformação social e o desenvolvimento de habilidades críticas. Não cabe uma visão reducionista para a educação como instituição de propósito único, mas ela precisa ser vista como uma oportunidade poderosa para formar e capacitar os indivíduos e construir uma sociedade mais justa e equitativa. A escola, quando bem estruturada e orientada, pode ser um catalisador de mudanças positivas, preparando os estudantes para enfrentar os desafios do mundo em constante evolução. Precisamos vê-la mais 'de fora', estourar nossas bolhas que estão cheias, muitas vezes, de soberba, arrogância e egos inflados que ocupam todo espaço que poderia ser ofertado às oportunidades de transformação.


Nota editorial: este artigo foi publicado originalmente em LinkedIn em junho de 2023 e foi republicado aqui como parte do acervo de textos do Mr. Brandão.

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